Um Dia Eu Invento um Nome

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Do Controverso ou Aos Meus Amigos Jornalistas, Com Desprezo


Veio do Controverso porque ele é muito mais criativo e atualizado. Dedicado aos meus amigos jornalistas, com desprezo.

Dispersos em recortes mal guardados
Fomos os tambores da revolução
Empoeirados
Livros abandonados: substituídos por factóides
O faro só detecta o que é terminantemente velho
E impotente
Frente à soberba que nos educa

Fraudamos e lamentamos
E o mundo não pressente ao menos nossos nomes
Indigentes, amordaçados
Preenchemos páginas e páginas com nada
Esse nada que é um abalo descomunal
Levando sua sombra para as mesas de refeição
Para o assombro dos que, ingenuamente
Sentiam-se livres
Apenas de longe vigiados
Situados comodamente nas porcentagens
Estudos de audiência e receitas publicitárias
Na poltrona estamos bem dispostos
Deste ou do outro lado
Apenas esperamos
Daqui a pouco começa o noticiário
O mundo e o horizonte se decompõem

E sorvemos com prazer
O momento do espetáculo e a comida com sabor mecânico
E nos recônditos, esse inconsciente colonizado
Grita frases de novela
Brada o medo das cidades
Do MST e das commodities
Impõe os planos do capital e sua agenda
Mostra os fatos (ou simulacros?) e as contendas
Entre quem fala tanto e escuta pouco
Do alto de um signo rouco
Um suicídio é pouco
O genocídio já é cinema
A política já é efêmera
E o jornal deve sair todos os dias
A madrugada é fria
E consome muitos seres
Que não merecem o luxo
De ilustras nossas manchetes

E mesmo assim, somos persistentes
Acreditamos e nos fiamos piamente
Que brincamos de opinião e distanciamento
Com maestria, rédea curta sobre a linguagem
Crianças mal-criadas, prepotentes
Deixemos as verdades para a filosofia
E para idosos decreptos e ranzinzas
Pois o que precisamos é reverenciar as tecnologias
A ciência e toneladas de cardiopatias

Sobrevivemos: aversos ao silêncio
Repletos do ardor egoísta de perfurar camadas rígidas de corrupção
Celebrar mortes vazias e o aumento da inflação
E segue essa invenção curiosa
Nociva, que a burguesia chama povo
Que lê mas não compreende
Que apenas quer vandalismo e essa instituição lúgubre que é a violência
(Usemos menos de nosso intelecto
Pois eles só precisam de meia hora)

Precisam...

De aspas da oposição
De documentos estritamente inúteis e que povoam o mundo antes mesmo do gêneses
Da armadura impenetrável (insuportável) e hermética
Para sustentar o trabalho de todos os dias
Esse desgate eterno que é a notícia
Entropia, ruído e cacos de vidro
O final é o contato indolente com o que não respira no solo
Com uma crítica estéril
E uma enfadonha indecisão
"Isso vai no lead ou não?"

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Dois Pesos e Duas Medidas ou O Mais Legal São os Discursos


A mídia trabalha com dois pesos e duas medidas. Perdoem-me por novamente atualizar o UDEIN com um texto que não seja sobre a democratização da Comunicação Social (Alguém aí realmente se importa com o tema?). Mas a oportunidade não pode passar. Portanto, para você que não gosta de ler muito, hoje é seu dia de sorte. O UDEIN só está aqui nesse momento para lançar uma pulguinha atrás da orelha.

Não acompanhei por outras mídias, mas vi no JN que foi aprovada pelo Congresso a convocação de um plebiscito na Colômbia para a reeleição do presidente Álvaro Uribe por mais um mandato. Pronto, leitor(a) lúcido... é a sua vez...

- Ué, mas não é a mesma manobra política do Chávez?

- Sim, é.

O mais legal são os discursos.

Manobra chavista: Malditos bolcheviques fora de época. Querem desestabilizar a América Latina com medidas autoritárias travestidas de democracia. Isso é uma medida que põe em risco todas as instituições democráticas do continente e pode levar-nos a bancarrota. O didator Hugo Chávez, com seus delírios bolivarianos (essa expressão virou até jargão), quer afundar a Venezuela em um cenário político defasado em relação às novas tendências mundiais. Não vamos permitir esse porco imundo e decrepto de tripudiar sobre as liberdades individuais.

Manobra do Uribe: Uribe acredita na jogada principalmente por sua eficiente política de combate ao narcotráfico e... e... e... é isso... deixa o menino brincar de ser presidente em paz, poxa! Ele não está fazendo mal a ninguém.

Socialista no poder por mais tempo? Vamos demonizá-lo até cansar e utilizar todo tipo de especialista que possa reproduzir aquele papinho chato de "as instituições democráticas vão erodir e blá blá blá".

Aliado americano no poder por mais tempo? Vai ter um churrasquinho para comemorar, vai? Depois de jogarmos uma peladinha e ficarmos bêbados nós podemos sair por aí matando supostos narcotraficantes e dando declarações para a mídia de que nossa política de exter.. erh.. segurança é um sucesso, o que acham? Super divertido, né?

A opinião do UDEIN: Qualquer presidente pode convocar um plebiscito para se manter no poder. Se o povo aprovar, eu até critico, mas não me contraponho a soberania de um Estado Nacional. Assim como o Chávez manobrou é direito do Uribe manobrar. Só não é direito da mídia dar um tratamento tão discrepante para ambos os casos. Mais uma vez a ética e o compromisso de levar informações bem apuradas para a sociedade ficam para escanteio. Muito triste.

Adendo: Fiquemos atentos ao projeto de reativação da 4º frota do governo Bush. Lastreados no combate ao narcotráfico, o governo colombiano e americano podem iniciar um massacre equivalente aos do Afeganistão e Iraque debaixo de nossos olhos. Aqui do nosso ladinho. Não estou defendendo o narcotráfico, mas sabemos que tipos de direitos são desrespeitados em um combate, principalmente com os EUA envolvidos. É preciso que a sociedade fique atenta. Esse assunto nos diz muito respeito.

Voltamos a programação normal: ou seja, eu só atualizar essa merda de 4 em 4 anos e prometer textos que nuncam saem (não, eu não fiz uma jogada política para manter-me no poder do UDEIN indefinidamente).
Atualizando: O texto que é muito melhor que o meu (maldito Altamiro Borges, será que se fizer plágio ele me pega?).

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Textos Enormes ou Boa Noite


- Oi?

- ...?

- Tá fazendo alguma coisa?

- Porra Thales, escrevendo às 2h40 da manhã?

- Eu sei que é o horário não é apropriado, mas eu posso fazer uma pergunta?

- Pois não.

- Você acha os meus textos enormes e por vezes chatos demais?

- Olha, cara... Considerando que: você é um louco que me cria como personagem para representar o seu leitor(a); me invoca no texto quase às 3h da manhã, mesmo sabendo que a pessoa possa ler isso às 16h e achar você um imbecil; levando em conta também que essa espelunca que você chama de blog não passa de mais um de seus surtos incompreensíveis de humor maltrapilho; eu acho um consolo estar escrevendo e não preso a uma camisa de força.

- Você não respondeu a pergunta...

- Sem contar que essa de “dialogar” com um possível leitor é um plágio descarado do Machadão que ninguém notou ainda.

- Poupe-me, ao menos, do indicativo irônico de aspas já que você enfiou seu ouvido no ânus e não vai me responder.

- Sim. Seus textos são longos e chatos demais. Por que isso agora?

- Como você sabe, são quase 3h da manhã e meu estado de consciência não me permite dormir. De tempos em tempos, a Amanda sofre, coitada. Ela que alega sentir frio mesmo em noites beirando os 30 ºC só para dormir agarrada em mim, está desamparada em seu sono nesse momento. Eu fervilho em idéias. O mundo dos sonhos não me soa convidativo. Estranho, pois um cansaço pesa em meus músculos através de movimentos reticentes. Familiares gestos envoltos em preguiça e indolência. Há somente um pensamento vibrando como o vigoroso chocalho de uma cascavel na minha mente em vigília. É como aquela poesia que você esperou para escrever por anos e que, agora, desce suavemente pelo seu antebraço e pela sua mão. Misteriosamente, a gravidade que atua nos corpos atua no pensamento. As palavras são tragadas para o papel como a água da chuva encharca o solo. Entretanto, o que me agita não é poesia, nem uma nova teoria. Como sempre, é uma pergunta: sabendo que meus textos são enormes, e que a pressa de sobreviver no caos do mundo é um imperativo, o que farei já que não consigo ainda deixar a gravidade atuar em meus dedos de modo mais objetivo e sei que essa é uma crítica recorrente ao blog?

- Não faço a menor idéia, versão óbvia, chata e magra de James Joyce.

- Humor barato! Com textos enormes!

- Era só o que faltava...

- Claro, é fantástico. Um texto livre dessas problemáticas tão desgastantes quanto a democratização da comunicação. Aliás, a segunda parte e a terceira parte desse texto me consomiram muito. São tantos aspectos, tantos cuidados, tanta delicadeza que está se tornando um martírio trabalhar nelas. A Amanda abriu meus olhos para a falta de praticidade em meus textos. Ninguém tem tempo para ler teorias de três páginas. Três páginas que eu faço mais por pirraça do que por necessidade.

- Peraí, então esse texto foi feito antes da parte 2 da democratização da comunicação? Por isso que demorou tanto, né?!


- É, é... Mas esquece essa porra! A idéia é outra. Fazer piada sem compromisso. Voltar a ser criança. Que nem o segundo post. Nada de muito sério. Coisas bem escatológicas e baixas... Tive uma idéia... Escrever abaixo do título do blog “Os textos mais longos e mais chatos da história da internet (que convenhamos não é muito longa, mas isso não desmerece a honra)”. Seria uma forma de fazer piada com a minha desgraça. Brasileiro já gosta de rir de si mesmo. Ora, quer mais sintonia com nossa bela nação que isso?

- Acho que o subtítulo ficaria grande demais para o layout, gênio.

- É, né?

- E, de mais a mais, você está soando patético!

- A proposta inicial do blog era ser muito mais humorístico, Vermelhinho. Porra, pensa na grana!

- Que grana, seu tarado inconseqüente? Tá louco... Está assustando os leitores do blog com essa porra... Sem contar que você deve estar me confundindo com o Chapolin.

- Foi outra piada, seu tolo. Você não está entrando no espírito da coisa (Os xingamentos do Vingador funcionam bem fora da Caverna do Dragão, não?).

- Desculpe, leitor(a)... O Thales não está passando bem. Juro que ninguém está sabotando o blog...

- Vermelhinho! Você faz o papel do leitor(a). Como pode estar falando consigo mesmo?


- Considerando que eu, na verdade, sou você – e ainda assim, estou tentando te trazer de volta a lucidez só corroboramos a minha tese de que você precisa de tratamento, seu maldito retardado. No máximo esse texto completamente incoerente que você está escrevendo só vai virar um caso curioso para a semiótica e todo aquele papinho de sujeito da enunciação para cá, enunciador para lá... Vai desbancar aquela menininha lá... o nome dela... qual é mesmo?

- Lispector, animal.

- Essa piranha aí mesmo... Quer um conselho?

- Hum...

- Já que você virou o Zezinho Insone e dos textos experimentais, tenta inserir mais cenas de ação, que nem você já fez algumas vezes – tipo o texto sobre o Natal. É melhor que ficar metralhando reticências pelo texto para exemplificar ponderações, ironias, pausas e essas coisas.

(Thales pondera determinado tempo, ao fim, abre um parênteses e...) – Assim?

(Vermelhinho abre uma cara de contentamento) – Exato, exato. Agora podemos até utilizar o cenário que temos, andar, gesticular. Por exemplo, vou sentar nessa cadeira.

(Thales não consegue esconder seu ar de dúvida) – Que cadeira, gay?

(Misteriosamente uma cadeira brota do nada) – Esta aqui!

(Thales assume ar de espanto) – Oh! Legal! Só que aí você atrapalha para chegar à janela.

(Vermelhinho levanta o olhar em tom de interrogação, Thales acena com a cabeça. Vermelhinho olha sobre os ombros e vê uma janela também brotar do nada) – Sinistro! Você que queria fazer humor tá quase fazendo a quarta parte do Poltergeist... Bom, mas esquece isso. Além de expressões, eu posso andar, cair, ir ao banheiro, tudo para incrementar a narr...

(Thales irrompe em um surto colérico por achar que Vermelhinho crê que sua noção do que seria uma encenação seja rudimentar demais) – EU SEI O QUE FAZER, PORRA!

(Vermelhinho mentalmente solta um “Tá nervosinho, filho da puta?” mas sabe que nessa conjuntura do texto, não pode manifestar tal opinião após o travessão) – Nossa, você está forte?

(Thales sabe que é quase o rascunho de um grilo com fome e, obviamente, nota a ironia. Entretanto, antes que ela faça qualquer coisa, Vermelhinho sugere):

- Então: vamos tentar. Faça-me dar uma volta.

(Thales pensa em dizer que abrir e fechar esses parênteses já deve ter perdido a graça, além de ser chato, mas Vermelhinho prossegue). - VAI, CARALHO!

(Vermelhinho dá uma volta em torno de si mesmo)

- Aê, conseguimos! Muito bom! Pelo menos agora temos uma nova ferramenta para adicionar aos seus textos sem graça!

- Tá maluco? Meus textos são ótimos. A Amanda riu duas vezes em vinte e três deles.

- E aposto que você acha isso uma ótima média, né? Garanhão! Espero que o sexo não siga o mesmo princípio!

(Thales olha Vermelhinho fixamente e indaga firme) – Você quer me irritar, insolente?

(Vermelhinho olha para Thales como quem diz “quando ele vai parar com essas gírias patéticas do Caverna do Dragão?!”) – Imagina, patrão!

(Vermelhinho encaminha-se para o peitoral da janela)

- Porra Thales, que isso?! Foi brincadeira?!

(Vermelhinho sobe e inclina seu corpo para fora do 7345º andar)

- Filho da puta, tinha que pegar pesado no número de andares, é? Diminui para 4097!

(Thales encara Vermelhinho com um olhar de “estou apenas fazendo o meu trabalho”)

- Ok! 5134!

- 6754!

- 4866 e não se fala mais nisso.

- Feito!

- Feito?! Você não é muito bom com números, Thales!

(Thales faz cara de misericordioso enquanto digita no novo parênteses que agora são só 4866 andares) – E então, meus textos continuam sendo ruins?!

(Vermelhinho fica pálido de medo e gagueja (Não vou reproduzir textualmente alguém gaguejando, né?! Por favor, use a imaginação)) – Não, que isso. Eu até gostei desse porque você deixou eu chamar a Clarisse Lispector de piranha (mesmo achando que muita gente vai sair magoada e sabendo que a Amanda acha essa idéia uma tremenda falta de respeito).

(Thales levemente deixa escapar que começa a amolecer, mas resiste por mais tempo) – Não sei se estou completamente convencido.

(Vermelhinho tenta uma última cartada antes que Thales dê um fim a sua existência imaginária) – Que isso, campeão! Seus textos são brilhantes. De uma inicial autocrítica ao tamanho dos seus textos você conseguiu criar um bom texto de humor. Os leitores do UDEIN vão adorar. Claro que você teve uma ajuda minha na interpretação e criação, né?!

(Thales assume o ar de quem aceita a veracidade do argumento ainda que contrariado) – Isso vai, masturba o ego. É tudo meu mesmo!

- Sem contar que eu tenho uma ótima idéia para terminar o texto. Nessa altura, já que você não falou de nada com nada, um final meio cult cai bem.

(São 4h da manhã e após muitos cigarros, Thales só quer um final cult para agradar gregos e troianos da pós-modernidade) – Manda!

(Vermelhinho faz cara de esperto e manda) – Então, que tal se na útlima fala do texto, ao invés do preto e do vermelho você usasse uma cor intermediária entre as duas – laranja, por exemplo – para simbolizar que nós finalmente voltamos a ser um só e entramos em consenso. Seria uma boa saída semiótica.

(Thales não contêm o espanto e dispara em alegria) – Ótimo! Só precisamos achar uma frase que caia como uma luva nisso e feche o texto com chave de ouro.

(Vermelhinho desce da janela e gentilmente aperta a mão de Thales. A amizade está em paz novamente. Eles contemplam o mundo imaginário fora da janela do 4866° andar. A visão é linda. Os dois nela perdem o olhar e o objetivo. Horas passam sem uma palavra ser dita. Por fim, Thales desiste do esforço. Vermelhinho já está jogado em um canto do cômodo imaginário dormindo. A janela e a cadeira se desfazem no vento gelado da madrugada. Thales está de novo ao lado da Amanda. Ela, por fim, se sentirá aquecida. Thales apaga o último cigarro, desliga seu laptop e se deita. Após o texto-catarse, Thales começa a vagar pelo universo onírico. Seus lábios murmuram quase que em tom inaudível):

- Boa noite. Durma em paz.


P.S: Sim, eu sumi.
P.S 2: Não, eu não esqueci da parte 3 do texto.
P.S 3: Sim, eu sou indolente e pouco prático.
P.S 4: Não. Não posso garantir que eu não vá sumir de novo...
P.S 5: Sim, esse texto é só para tapar buraco e não deixar a (pouca) reputação que resta do blog se perder...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Apêndice Insólito ou Precisamos de Jornalistas que Pensem


Peço licença – novamente – para desvirtuar-me do propósito de escrever sobre a democratização da comunicação. Entretanto, o assunto que tratarei aqui não está totalmente desvinculado da discussão que eu propusera. É um apêndice insólito sobre nossa conjuntura. É um grito de indignação. É um texto que já estava rondando minhas idéias há algum tempo, mas que nunca saia. Seria mais vantajoso amadurecer a ideologia do blog a respeito do jornalismo para depois entrar de sola nessa discussão infantil que é a obrigatoriedade do diploma. Ontem, a quadrilha do seu Gilmar Mendes (exceto o Ministro Marco Aurélio) feriu profundamente a sociedade brasileira. O STF derrubou a necessidade do canudo de jornalismo por oito votos a um. Por isso, esse texto torna-se urgente, contingente, necessário. Resta agora vasculhar os detritos desse colapso e discorrer sobre eles.

Argumentos para descer a porrada nesse retrocesso travestido de medida democrática não faltam. Sinceramente, nem sei direito por onde começar. Mas vamos imaginar que o diploma ainda é necessário e vamos analisar os leads construídos pela grande mídia na abordagem do tema.

Recorrentemente, as chamadas sobre o assunto variavam sobre um único tema: o diploma era um resíduo da ditadura militar. Eu já toquei superficialmente nesse ponto em outro texto. Colocar o diploma como uma criação do regime militar não é uma mentira, mas serve para ideologizar o debate. Necessariamente, qualquer criação da ditadura seria uma aberração e obstáculo ao progresso de nosso espírito democrático. Assim, a expressão “regime militar” servia como um aposto odioso no qual deveríamos nos ater e rejeitar o diploma com veemência. Há algo estranho nisso? Absolutamente.

Pela milionésima vez, recorro a Marx. O capitalismo é um sistema essencialmente revolucionário. Eric Hobsbawm em seu primoroso livro “A Era dos Extremos” mostra que durante todo o século XX, o capitalismo movimentou-se no sentido de serrar sem pudores os galhos onde ele se assentava e que eram extremamente necessários até certo ponto. Após usufruir de todos os benefícios de uma lógica mercantil, de um modelo de organização social ou o que quer que seja, o capitalismo põe-se em novo movimento e destrói essas condições para impor outras mais pertinentes. E-xa-ta-men-te o mesmo processo pelo qual passa o jornalismo.

Na segunda parte do texto sobre a democratização da comunicação eu procurei demonstrar a dialética que funcionava entre mídia e o Estado autoritário. Um dependia do outro e cresceu em função do outro. Em certo momento, as instituições midiáticas viram que o regime não lhes era mais necessário. Sua força já suplantava brutalmente qualquer noção de confiança social no governo. O processo de separação e negação entre ambas chega agora ao seu momento, simultaneamente, necessário e crítico.

Crítico porque para qualquer observador atento, o modelo de informação hoje vigente em nosso país é fruto dos anos de chumbo. Não se trata do diploma ou da Lei de Imprensa. Acabar com essas ferramentas não dará uma dinâmica mais democrática à comunicação. Simplesmente mascara-se uma dívida que os conglomerados midiáticos – principalmente a Globo – têm com a história do país em função de uma ideologia político-econômica do jornalismo. E, mesmo assim, eu vi ontem Willian Waack e Heraldo Pereira (que na minha opinião é o melhor jornalista político do Brasil) extremamente empolgados com o fim do diploma. Legal, né? Eles já têm emprego. Eu, Matheus, Ana Letícia e Clara – os estagiários, fodidos e nem pagos, do Núcleo de Comunicação Social da UFF – que estamos trilhando nossos caminhos profissionais é que não estamos nada felizes com essa porra. Assim como tantos outros estudantes de jornalismo que do dia para a noite sentem o peso da dúvida e da incerteza sobre suas cabeças.

A questão é que esse movimento que parece ser semelhante entre o capitalismo revolucionário e a mídia não é só parecido: é o mesmo. Há tempos que a atividade jornalística mainstream eximiu-se de ser um instrumento de fomento democrático para virar uma máquina de fazer dinheiro. A lógica que fez soçobrar o diploma é a lógica do capital aplicado. Nem vou repetir o papo do ganho de poder econômico e político que o jornalismo teve ao longo de sua existência. É um assunto que já descrevi exaustivamente e que não é novidade para os que freqüentam o UDEIN.

Vitória portanto do modelo democrático que perdura desde 1789. Essa democracia farsante que exclui mais do que inclui. No meio disso tudo só resta uma indagação: de onde diabos o seu Gilmar Mendes tirou que fazer com que todos possam exercer a atividade jornalística seja uma forma de incrementar a liberdade de expressão? O materialismo histórico implode esse argumento com a facilidade com a qual um furacão arranca folhas das árvores. Sim, imaginemos que agora todos possam escrever, expressar suas opiniões e assim sentirem-se cidadãos. Falta perceber que a construção de nosso imaginário e de nossa realidade passou, passa e continuará passando pelo crivo das grandes corporações midiáticas. Ou a galera empolgada com a internet vai dizer que blog é uma forma de expressão válida que pode concorrer com a grande mídia? A internet, assim como outras plataformas de informação, é concentrada nas mãos dos grandes barões da informação. A grande credibilidade continua com eles. O que acontece é o seguinte: em vez de contratar jornalistas que se enquadrem a ideologia privada agora eles podem contratar qualquer um que se enquadre na ideologia privada. Parabéns Ministro por sua leitura pífia do que seria a democracia. Materialmente continuamos dependentes dos que tem as concessões de radiodifusão, dos jornais mais vendidos e da palavra dos especialistas. Será que sem o diploma o jornal O São Gonçalo alcançará tanta credibilidade quanto O Globo? Será que disseminar a possibilidade de se fazer jornalismo para todos é a solução?

Mais uma vez, a mídia sai de fininho pela tangente. “O quê? Debater quem somos? Que interesses temos? Como nos estruturamos? Esses malditos comunistas são mesmo sonhadores, né?”

Precisamos de jornalistas que pensem. Dá até uma pontada no coração dizer o que direi, mas vá lá: eu prefiro um maldito neoliberal escrevendo em um jornal que tenha tido contato com Adorno, Morin, Debord, McLuhan, Pêcheux do que um marxista que não saiba diferenciar a liberdade de impressa da liberdade de expressão. Precisamos entender que fazer jornalismo é interpretar o mundo de uma determinada forma. Um enquadramento de câmera, uma informação no lead ou no pé da matéria, um posicionamento corporal e até mesmo a famigerada levantada de sobrancelha do Bonner é um signo. É um sinal, pequeno e ínfimo, mas que está embebido de ideologia. Como agora vamos deixar todo esse mar de significações inavegável? Não sou contra alguém de outra área exercer a profissão, mesmo porque isso acontece frequentemente e deve acontecer. Mas é preciso conhecer minimamente o que já foi desenvolvido dentro da área da comunicação. Se a porra de um economista quer fazer jornalismo, vá estudar. Simplesmente fazer não é garantia da tão aclamada liberdade democrática. A idéia de reformular os cursos de jornalismo agora dá com os burros n’água. Quem é que vai querer fazer uma graduação em jornalismo hoje? Nossa profissão irá virar motivo de chacota. Isso sem contar que já ganhamos mal para, muitas vezes, termos que trabalhar em diversas mídias.

Já éramos reféns do mercado em nossa formação. Agora se abre a possibilidade para que sejamos reféns do mercado em nossa atuação. O primeiro que quiser começar o banho de sangue e reduzir drasticamente os salários dos jornalistas vai se dar bem. O exército de trabalhadores quase interminável está aí, doido para escrever. Nem a máxima da especialização e divisão do intelectual do trabalho fará frente a esse novo panorama. Afinal não é esse o “brilhante” argumento de que qualquer um faz jornalismo? De que qualquer um escreve? Essa baboseira de dom e talento? Mesmo o desgraçado mais genial em qualquer campo artístico deve ter um conhecimento sedimentado de sua atividade. Mesmo os talentosos por vocação, após um tempo, sentem a necessidade de debater filosoficamente (no sentido mais amplo) a forma de elaboração de seu trabalho. Pois bem, então vamos todos fazer jornalismo. Vamos piorar a merda do sistema comunicacional do nosso país com o orgulho de que estamos fazendo o melhor para a democracia. E eu concordando com o Altamiro Borges quando ele dizia que vivemos numa ditadura midiática. Altamiro, tempos mais negros virão.

P.S: Não terminei. Quem terminou foram as três folhas. Voltarei a descer a porrada no fim do diploma. Mas é melhor esperar a minha vontade de invadir o STF com uma UZI passar.

Links sobre a discussão (como o blog preza a livre crítica e todas as opiniões divergentes, os textos são de colunistas contra e a favor do diploma).

- Renata Mielli - O jornalista cozinheiro e o fim do diploma (Vermelho)

- Carlos Castilho - O problema não está no diploma (Observatório da Imprensa)

- Diretoria da Federação Nacional de Jornalistas - Oito contra oitenta mil. Oito contra 180 milhões. (FENAJ)

- Alberto Dines - Uma sucessão de equívocos (Observatório da Imprensa)

- Carlos Brickmann - Muito barulho por nada (Observatório da Imprensa)


quinta-feira, 28 de maio de 2009

Controverso ou O Texto Intruso


Muitos irão achar esse escrito sem muita utilidade. De certa forma, há um fundo de verdade nessa adjetivação. O texto não se encaixa totalmente ao perfil que o blog carrega e as indagações que ele formula e leva a frente. Na verdade ele é fruto do que o blog não tem, daquilo que não encontra espaço no UDEIN: a poesia (e também da propaganda, mas aí fica feio de dizer).

Esse espaço é muito visceral, muitas vezes beirando a hipérbole dessa característica. Contudo, leitor(a), não se engane. Na maioria dos casos isso é proposital. O Um Dia Eu Invento um Nome nasceu e cresceu em meio ao meu nada humilde desejo de estabelecer novas plataformas críticas. Apenas mais um no caos informacional que está instaurado, esse espaço visa lançar novos olhares sobre antigas questões e até mesmo velhos preceitos em temas que permanecem adormecidos fora de nossa agenda. Tudo isso regado a (às vezes hiper) doses de humor e provocação barata na tentativa quase ingênua de fazer repercutir os ecos de minhas proposições. Logo de cara, descartei a sensibilidade. No máximo a reduzi à inserções pequenas em algumas crônicas e, ainda assim, acho que ela esteve mais presente no texto do menino que revirava o lixo. Ainda assim, curioso, pois eu o acho o texto mais sanguinário do blog e, de algum modo, revestido de um quase-romance proveniente da realidade áspera da qual muitos não conseguem escapar.

Mas eu queria abrir meu caderno de poesias para o mundo. O imperativo humorístico-crítico-inconveniente do UDEIN tornou-se um limite para essa tarefa. E, vocês hão de convir comigo, seria patético ver algum dia uma poesia soturna e cadavérica perdida em meio à escatologia desse blog. Tudo isso porque, como eu já disse, o eu-lírico que estabeleço em minhas poesias é um deprimido que vaga pelo mundo sem muitos planos (quase O Estorvo do Chico). Alguns poemas mais marxistas até teriam algum diálogo com seu entorno e mesmo assim, optei por abrir outro espaço para incursões poéticas. Daí nasceu o Controverso.

O vento de todos os lados, diferentemente de seu irmão marxista, é despretensioso. As convicções e verdades estão banidas. As imagens e idéias atravessam meu corpo como se o ar tivesse perdido sua sanidade e agora agredisse a humanidade por todos os fronts. Justamente por isso ele é controverso. Ele é companheiro dos paradoxos e da incoerência. É poesia. Fruto de uma mente perturbada, apaixonada, alienada, fragmentada, convicta e todos os outros adjetivos do mundo. As fronteiras da razão foram abolidas do mesmo modo que a economia fez com as delimitações geográficas no século XX. Tudo é pertinente ao mesmo tempo em que é descartável. Na verdade, todo esse marketing é mais para alertar aqueles que de fato gostam de meus escritos. A diferença entre as abordagens é brutal, mas ainda assim é o Thales que se esconde por trás das palavras. De uma forma ou de outra, há um resíduo inexpurgável nos dois blogs. Um denominador comum: eu mesmo. Paralelos não faltarão. Acontece que há de haver saco para encontra-los (eu desisti, se alguém se habilitar). Decidi apostar todas as fichas no UDEIN. Muito em função dos últimos textos sobre a democratização. A tarefa foi tão complicada, em função do rigor metodológico que eu tive de empreender, que deu gosto. Adorei revirar meus livros para estabelecer minhas conclusões. Foi uma experiência de pesquisa que eu não tive igual mesmo na faculdade (culpa minha, óbvio).

Assim sendo, o Controverso fica sendo o guardião da escrita automática, do fluxo do inconsciente. Das expressões sem pé nem cabeça que nascem na minha fome de poesia. É o lugar da minha liberdade. Onde entram o amor, a tristeza, as flores. Onde retorna o marxismo e a sociedade, mas dessa vez, em novas frases. O maldito é tão difuso e abrangente que gerou o primeiro texto pequeno do UDEIN, que lindo! Na verdade, o texto intruso. Enquanto vocês esperam (será mesmo?) pela continuação de minha argumentação sobre democracia e mídia, eu venho aqui fazer propaganda... O UDEIN continua sendo inconveniente. Agora, com a consciência livre.

sábado, 16 de maio de 2009

Parte 2 ou Ainda Sobre a Democratização da Comunicação Social


Na primeira parte desse texto, tentei visitar criticamente todos os conceitos em jogo atualmente no que compreende o processo comunicacional. Estabelecer sob que parâmetros estou pensando a democracia – real e utópica – e as liberdades de expressão e imprensa é imprescindível à parte 2 do debate: ainda sobre a democratização da comunicação social.

Resta agora, uma vista aérea do período compreendido entre a ascensão dos militares ao poder no Brasil e o processo de redemocratização da década de 80. Se não entendermos esse momento histórico de aproximadamente 20 anos, estaremos longe de compreender a estruturação do sistema midiático atual no Brasil. Por alguns motivos fundamentais: 1) antes de 1964, o Brasil vivia um paradigma comunicacional claramente diferente deste de início do século XXI, a televisão era um luxo para poucos acima do Equador e para outros mais raros ainda que abaixo dele viviam; 2) foi o período em que os responsáveis pelas mídias começaram a "pensar grande" e gerar o embrião de uma rede de emissoras e jornais sob uma única marca – a propriedade cruzada começava a engatinhar com ajuda do próprio Estado; 3) o regime ditatorial é nosso grande algoz em termos de sociedade, o pavoroso fantasma do passado que devemos negar constantemente. A mídia hoje ataca veemente qualquer personagem ou instituição que tenha vinculação amigável com essa nódoa em nossa história. Os exemplos mais recentes são a Lei de Imprensa e o diploma para o jornalismo. Antes mesmo de qualquer argumento, âncoras de nossos telejornais ressaltam enfaticamente que ambos são “criações do regime militar”. Esses anos funcionam como um aposto odioso ao redor do qual o debate deve orbitar. Em suma, não há espaço em nossa atual forma de sociedade para leis nefastas e reacionárias, filhas de um monstro eterno. Todavia, hoje, desmascararemos a maior e mais dedicada filha dos anos de chumbo: a mídia como um todo.

Nos anos 60, o mundo vivia dilacerado por um muro. Simbolizado pelo muro de Berlim, essa construção iria muito além das dimensões físicas do território alemão e empilhava seus tijolos em todas as nações do mundo. Comunismo de um lado e capitalismo do outro. Não havia lugar para meio-termo e/ou tolerância. O combustível das políticas estatais e economias do mundo ocidental era o medo da Revolução de Outubro alastrar-se pelo mundo. Já o que movimentava a política do Patido Comunista soviético e as administrações dos páises que viviam sob a asa da URSS era a certeza quase cega de que uma hora o capitalismo iria ceder sobre suas próprias bases apodrecidas e era preciso que o maior número de pessoas estivesse longe do epicentro da catástrofe. De uma forma ou de outra, o que crescia era o ódio mútuo, a desconfiança por todo o globo e o pânico de um terceiro derramamento de sangue sem precedentes na história da humanidade.

No Brasil não foi diferente. A simples plaquinha escrita “comunista” foi o suficiente para que um vice-presidente fosse impedido de assumir o governo, tendo início assim um período de terror. Para que todos os objetivos da ditadura se concretizassem era preciso legitimar o regime de alguma forma, além de sedimentar um forte sentimento nacionalista no gigante sul-americano. O primeiro objetivo ficou por conta do milagre econômico e o alinhamento da economia brasileira ao início da desregulamentação financeira de um mercado global e irrestrito; o segundo ficou a encargo da mídia que daria unidade à população do território brasileiro e "rasgaria seda" para cima dos grandes feitos da administração dos "milicos".

A fábula da censura hoje é mais um boato aumentado por uma trupe de senhoras da terceira idade conversando ao portão do que o que de fato ocorreu nos anos da ditadura. Logo, a relação entre jornalistas e censores se tornou agradável para ambos os lados – exceto para os exilados e os que foram perseguidos que não se curvaram frente às imposições do governo. Não era raro ver jornalistas dando palestras para militares para mantê-los a par do processo de produção de notícias; assim como não era raro ver a autocensura como uma constante nas redações dos que não queriam problemas com os temíveis torturadores. Por duas simples razões: os proprietários de jornais, TVs e rádios não queriam perder as injeções de capital norte-americano na economia brasileira que geravam mais e mais rendas publicitárias para as empresas e; não fosse isso, já bastaria um regime que não vivesse sob as diretrizes da foice e do martelo. Antes suprimir uma informação aqui e outra ali do que viver dependente de um país que era sinônimo de atraso, ignorância e pedofilia. As instituições mantiveram essa parceria até onde foi benéfico para seus interesses. Nossa consciência política e de nação foi forjada em uma orgia ininterrupta de capital, informação e poder.

Mas esse não é ainda o ponto-chave de minha argumentação, ainda que ter conhecimento dele nos ajudará mais a frente. O relevante é questionar: qual foi o efeito do período de tempo existente entre a supressão dos partidos e direitos políticos – momento cujas mídias hegemônicas, mais precisamente as Organizações Globo, se consolidaram – e os anos de redemocratização? O resultado foi uma lacuna em nossa noção de política e uma distorção na nossa forma de ver a mídia. Voltemos ao ponto 1 do segundo parágrafo:

Antes de 1964, a política de um candidato dependia inteiramente das bases partidárias regionais que ele tinha. Não havia uma rede comunicacional capaz de transmitir as ideologias de partido para todo o Brasil ao mesmo tempo, não de forma consistente. Com o fim dos partidos, a política foi negada à população. Quando essa chance foi nos dada novamente, estávamos familiarizados com uma mídia materna que nos informava sobre os milagres econômicos, sobre a vida política, sobre nossos valores familiares através de novelas, sobre os produtos e imagens de confiança de nossas vidas. Nos anos 80, o jornalismo já construira sua enorme credibilidade e relação com o espectador. Talvez fosse pior. Talvez nem sequer soubéssemos guiar nossa visão social não fosse por um grupo de "formadores de opinião". Nossos hábitos já são geridos de acordo com a programação de um canal e mesmo nosso descontentamento é garantido pelas tragédias diárias que a mídia veicula. Estávamos muito próximos de um futuro apocalíptico preconizado pelo escritor Ray Bradbury em seu Fahrenheit 451 onde a TV ocupava o lugar de um parente próximo ou um amigo confidente em nossos lares. Não foi a tarefa mais árdua formar uma aliança velada para eleger um até então desconhecido governador de Alagoas o presidente perfeito para o Brasil. O marketing invadira a política. Os preceitos de uma marca forte, de um público definido e de imagens belas – como o beijo do candidato em um bebê de colo – tornaram-se o preceito do modo de fazer política. Os partidos políticos, esvaziados de suas funções e de seu contato com o eleitorado na época do Estado policial, continuaram da mesma forma vazios de representação. Eram os passos que faltavam para transformar a política no circo imagético que hoje temos onde vence quem tem o melhor jingle, as mais belas cenas em slow motion do candidato visitando mortos de fome no sertão nordestino, o maior número de repetições da palavra emprego, trabalho e renda no seu discurso e a crítica mais engraçada ao governo (no caso da oposição) e o apoio do presidente (no caso dos governistas). Não preciso mencionar que o resultado final disso é uma crise institucional generalizada, a desconfiança e desesperança com a política e o discurso de “todos os políticos são farinha do mesmo saco” a qualquer custo. É a negação da política que não gera mais do que a continuidade da mesma corrupção e falta de ética da qual tanto reclamamos – o que não é surpresa para ninguém. Todos sabemos que a política só é o que é porque nós, a sociedade, vira as costas para ela e deixamos as mesmas famílias seculares governarem nossos destinos.

Essa crise está baseada em algumas distorções no campo da política e da comunicação que nasceu dessa displicência com a qual o regime militar tratava o processo cada vez mais rápido de acumulação de poder nas mãos da mídia. Esse foi um fenômeno que foi perseguido tardiamente mesmo pelos articulistas do governo que já percebiam ter gerado em seu seio o monstro com toda força de aniquila-lo. A mídia tão necessária à política do regime ganhou força demais fazendo o papel de construtora do sentimento patriótico nacional e de divulgadora dos benefícios do regime. Para citar algumas dessas distorções podemos falar da: transformação da mídia em um ator político através do acúmulo de poder econômico e credibilidade, além do poder de interferir no capital simbólico; da transferência de diversas incumbências dos partidos como canalizar as demandas da população, fiscalizar o poder público, agendar temas de debate; da alteração na forma de campanha eleitoral e de relacionamento dos políticos com seu público (que obviamente é feito pela mídia); das características específicas da população brasileira que saltou de uma condição "pré-gutenberguiana" (A expressão é do Venício, mas eu adoro) de analfabetismo para um mundo que bombardeia imagens incessantemente; entre outras anomalias da mídia e política.

Mesmo com toda essa ajuda dos militares para realocar uma fatia enorme do poder político, econômico e simbólico para os grandes conglomerados midiáticos, os patrões da informação não tiveram pudor em dar as costas para essa ajuda e literalmente “virar a casaca”. Hoje não se vê uma linha nos jornais ou nas TVs que falem sobre o apoio da mídia ao governo militar – exceto por uma tentativa patética da Folha de diminuir o assombro do período e caracterizá-lo como “ditabranda”. Hoje, o imperativo é negar o passado e olhar para um futuro com muito mais ambições que as de outrora. A Lei de Imprensa, o diploma, “criações do regime” são atacados pelos âncoras sem que ninguém mencione que a mídia tem toda a sua estrutura com o rabo-preso embaixo do chumbo da ditadura. Como uma instituição extremamente adaptável aos regimes – quase uma igreja católica que presenciou diversas civilizações – os "monarcas das informações" não mais precisam das reminiscências de seu amigo de infância. Podem apedrejar a forma administrativa dos militares e seus limites impostos à “liberdade de imprensa” para continuar seu caminho hegemônico.

Embora o quadro seja desolador, a merda pouco fede ainda. Na parte 3 desse texto falaremos das conseqüências mais desastrosas da relação ditadura-mídia que herdamos para a atualidade: a concentração cruzada da mídia e sua internacionalização. Só após isso é que poderemos falar das reformas constitucionais necessárias ao nosso sistema comunicacional.

P.S: Não mais irei enganar vocês. O tema é grande e complicado. Só essa segunda parte me deu um trabalho do caralho na coleta de informações - e mesmo assim o tema não se esgotou. Talvez eu precise de mais uns dois outros textos para finalizar o prometido. Azar de vocês... Batam no Filipe, a idéia foi dele.