
Veio do Controverso porque ele é muito mais criativo e atualizado. Dedicado aos meus amigos jornalistas, com desprezo.
Dispersos em recortes mal guardados
Fomos os tambores da revolução
Empoeirados
Livros abandonados: substituídos por factóides
O faro só detecta o que é terminantemente velho
E impotente
Frente à soberba que nos educa
Fraudamos e lamentamos
E o mundo não pressente ao menos nossos nomes
Indigentes, amordaçados
Preenchemos páginas e páginas com nada
Esse nada que é um abalo descomunal
Levando sua sombra para as mesas de refeição
Para o assombro dos que, ingenuamente
Sentiam-se livres
Apenas de longe vigiados
Situados comodamente nas porcentagens
Estudos de audiência e receitas publicitárias
Na poltrona estamos bem dispostos
Deste ou do outro lado
Apenas esperamos
Daqui a pouco começa o noticiário
O mundo e o horizonte se decompõem
E sorvemos com prazer
O momento do espetáculo e a comida com sabor mecânico
E nos recônditos, esse inconsciente colonizado
Grita frases de novela
Brada o medo das cidades
Do MST e das commodities
Impõe os planos do capital e sua agenda
Mostra os fatos (ou simulacros?) e as contendas
Entre quem fala tanto e escuta pouco
Do alto de um signo rouco
Um suicídio é pouco
O genocídio já é cinema
A política já é efêmera
E o jornal deve sair todos os dias
A madrugada é fria
E consome muitos seres
Que não merecem o luxo
De ilustras nossas manchetes
E mesmo assim, somos persistentes
Acreditamos e nos fiamos piamente
Que brincamos de opinião e distanciamento
Com maestria, rédea curta sobre a linguagem
Crianças mal-criadas, prepotentes
Deixemos as verdades para a filosofia
E para idosos decreptos e ranzinzas
Pois o que precisamos é reverenciar as tecnologias
A ciência e toneladas de cardiopatias
Sobrevivemos: aversos ao silêncio
Repletos do ardor egoísta de perfurar camadas rígidas de corrupção
Celebrar mortes vazias e o aumento da inflação
E segue essa invenção curiosa
Nociva, que a burguesia chama povo
Que lê mas não compreende
Que apenas quer vandalismo e essa instituição lúgubre que é a violência
(Usemos menos de nosso intelecto
Pois eles só precisam de meia hora)
Precisam...
De aspas da oposição
De documentos estritamente inúteis e que povoam o mundo antes mesmo do gêneses
Da armadura impenetrável (insuportável) e hermética
Para sustentar o trabalho de todos os dias
Esse desgate eterno que é a notícia
Entropia, ruído e cacos de vidro
O final é o contato indolente com o que não respira no solo
Com uma crítica estéril
E uma enfadonha indecisão
"Isso vai no lead ou não?"





